COMO AMADURECER OS FILHOS
Coloco aqui algumas orientações sobre "como amadurecer os filhos" (através das abordagens: Relação Conjugal e outros relacionamentos - Os caminhos a percorrer - Função dos pais e desempenho de papéis - Limite - Nível de exigência e expectativa - Escolha da profissão), cuja mensagem é: "preparar os filhos para serem adultos" que devem se sustentar na "responsabilidade", termo enfatizado pelos maiores líderes mundiais nas conferências de Amsterdã - Holanda e traduzido como sendo "prever as conseqüências de seus atos". Não se educa apenas para "assumir a responsabilidade", muito mais para "refletir" sobre os efeitos e importância das conseqüências de seus atos para si e os outros, principalmente, hoje, no mundo para globalização.
1 - RELAÇÃO CONJUGAL E OUTROS RELACIONAMENTOS
A união homem-mulher (seja através do casamento convencional, juntos ou em casas separadas, coabitação e outros modos que, por contratos, definem os seus objetivos), se constitui pela masculinidade e feminilidade e se processa pela conquista do homem e receptividade e sedução da mulher - vias contrárias, porém ativas. Tal união deve ser realizada com liberdade de escolha, a fim de que a percepção seja objetiva, isto é, a mais próxima do real.

As palavras marido-mulher, pai-mãe, avô-avó têm significados que implicam características de sentimentos próprios.

O marido que substitui o seu papel pela função paterna, bem como a mulher pela materna, causarão falhas na relação afetivo-sexual dos filhos por falta de discriminação. Conseqüentemente, o marido, além de se comportar com tais características, não deve chamar sua mulher de mãe e nem a mulher deve chamá-lo de pai. O sentimento que define tal relação e os vínculos afetivos-sexuais amadurecem os filhos na sua relação futura. Também o sentimento de pai-mãe e suas funções proporcionarão o bom desempenho dos filhos no futuro.

A sustentação da união se faz pelo amor - difícil de definir, mas fácil de se reconhecer -, pela admiração, gratidão e reconhecimento, tema já abordado por mim no artigo "Casamento Convencional" no livro "Diversas Formas de Relacionamentos".

Na separação, o que se realiza é o fim da relação marido-mulher, jamais pai-mãe, e isso deve ser muito bem trabalhado nos filhos e comprovado pelo comportamento, interesse e atitudes dos pais separados.

Ressalto que, muitas vezes, o casal, pela rotina, transformação do lar em casa, desentendimentos sexuais etc. bloqueia seu amor, mas que ainda existe e, no caso, deve-se procurar recursos o mais cedo possível para evitar a separação. Outra causa da separação, ignorada por muitos, é o não resgate da mulher ou do homem, após a gestação, esclarecido aqui, mais adiante, na abordagem Os caminhos a percorrer.

A relação marido-mulher é bipessoal, deve ser crescente como o Bolero de Ravel, e se afirma pelos vínculos afetivo-sexuais. Já a relação pai-mãe é triangular, porque inclui um terceiro e confirmado pelas suas funções, o que também é explicado abaixo.

Hoje, com o desempenho de diversos papéis profissionais e familiares exercidos pelo homem e pela mulher, é bom lembrar a ênfase oferecida pelos grandes líderes mundiais nas Conferências de Amsterdã - Holanda, de que os dois piores vícios, atualmente, são o trabalho e a idéia fixa. Saber utilizar o tempo livre e separar os contextos (o meio familiar do profissional) através do viver no "aqui" e "agora" é o segredo para o bom humor, pois não podemos ficar divididos e nem estar presentes em dois lugares ao mesmo tempo, causas de irritação e intolerância.

Finalmente, a flexibilidade nos papéis marido-mulher, pai-mãe, a gestação desejada, a amamentação bem conduzida, o resgate, após a gestação, do marido e da mulher e o desempenho da função dos pais são alguns pilares de sustentação do lar, contaminado com o afetivo e sexual.
2 - OS CAMINHOS A PERCORRER
Todos nós somos gerados e vivemos, por determinado tempo, dentro do meio inesquecível - o útero materno - que é a morada comum do filho homem ou mulher. Os fins, todavia, são diferentes. O filho homem não se desvia do seu caminho inicial, da mulher-mãe, apenas muda o seu objeto de desejo, outra mulher que não a mãe, para complementar a sua masculinidade. Já a filha mulher, ao contrário, desvia do seu caminho primeiro, a mãe, e busca, de uma forma especial - receptividade e sedução discreta -, o seu parceiro.

Enquanto o homem é via direta e conquista, a mulher é linha sinuosa e receptiva, porém ambos ativos.

Assim, pelos caminhos percorridos e objetivos diferentes, a função dos pais é facilitar a aproximação do filho para com a mãe e da filha para o com pai e, mais tarde, permitir a flexibilidade do afeto e sexualidade fora do meio familiar. Tal procedimento evita a rivalidade e facilita a superação do Édipo.

Ressalto que a nossa atenção e procedimentos não devem ser direcionados apenas ao pós-natal. O psicanalista Doutor Arnaldo Rascovsky, no seu livro "O Filicídio - assassinato dos filhos", se refere à nossa compreensão para os meses de gestação, na qual a maioria das mães passam por uma progressiva, clara ou sutil retração libidinosa em relação ao seu parceiro sexual, enquanto cresce a sua relação com o feto.

Nessa circunstância, de forma manifesta ou não, o pai é excluído da relação materno-filial, e esta perda, transitória, do seu objeto de desejo provocará a identificação do pai para com o filho feto que irá facilitar o bom desempenho da função paterna. Após o nascimento, o pai deve resgatar a sua mulher, e a mãe o seu marido, - porém, quando ambos ficam cristalizados no papel de pai ou mãe e não de marido e mulher, o ciúme poderá ser incrementado, causando dificuldades na relação triangular que vai desde o espancamento até o filicídio.

Essa transformação - devido à redução dos hormônios da gravidez - e o desejo do resgate são fundamentais na relação triangular mãe-filho-pai, para a harmonia familiar e continuidade da união.

Hoje, a imprensa e a televisão denunciam tais violências, cujas raízes, muitas vezes, estão na ignorância dos procedimentos na gestação e no resgate da mãe para mulher e do pai para marido.

Finalmente, conclui-se da importância da função dos pais desde a gestação, dos caminhos a serem percorridos, superação do Édipo e a aceitação da busca do parceiro futuro.
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PUBLICAÇÕES
3 - LIMITE
 
Palavra, hoje, tão comentada, há anos foi transcrita, no jornal do Santa Maria, na palestra que proferi aos pais dos alunos a convite da APM. Lá está: "Educar é liberdade com limite" e "é necessário empregar o não adequadamente, sem agressividade".

Expressar o não com o movimento lateral da cabeça, junto com o mesmo movimento do dedo indicador, deve ser utilizado na educação da criança para facilitar a simbolização. O bebê, durante a amamentação, pratica o mesmo movimento de cabeça, indicando que está satisfeito, é o seu não.

Limite não pode ser confundido com repressão. O limite atende ao convívio social, previne contra o perigo e prepara para a responsabilidade, que é refletir e prever o alcance dos seus atos. Já a repressão é uma imposição que atende mais a quem impõe e tem alcance imprevisível porque não é educativo.

Aquele que não tem imite não sabe oferecer limite, e o que não sabe dizer não também não obedece a este.

O limite e o não, bem simbolizados, facilitarão a inclusão na sociedade, remetendo ao reconhecimento e obediência às suas leis, normas e regras, porque serão bem compreendidas, aceitas e elaboradas.
4 - FUNÇÃO E PAPEIS DOS PAIS
Na educação, a evolução da personalidade se constrói com a função principal dos pais, que se concretiza através dos caminhos a serem percorridos pelos filhos e a superação do Édipo, permitindo a integração da relação triangular pai-mãe-filho, sem rivalidade.

Os pais, pelo desempenho dos seus diversos papéis, como os profissionais, sociais e outros, todavia não cristalizados em um só papel, como unicamente o de educador, ou de professor etc... proporcionarão aos filhos comportamentos adequados aos contextos em que se encontram.

O casal, pelo exemplo, e não somente por palavras, sustenta sua autoridade, mas é também amigo. O pai e a mãe antecedem o amigo.

A passagem da relação vertical (autoridade) para a horizontal (amigo) se realiza quando os diferentes papéis, no seu desempenho, estiverem bem desenvolvidos. A fixação em um só papel é um dos sinais de neurose.

No âmbito familiar, deve-se observar e cultivar os bons exemplos da sociedade. Discriminar o certo do errado, o bom do mau e sustentar dentro de si o sentimento bom e de gratidão.

Outro fator muito importante é a prática objetiva do senso crítico, justificando com argumentos coerentes com a realidade. A percepção da parte para o todo, o predomínio da objetividade sobre a subjetividade contribuem para a evolução da personalidade.

Com a imposição de normas, regras e educação rígida, o eu permanece infantil, sem autonomia nas decisões. Diz o psicanalista Doutor Jacques Lacan "E uma lei incompreendida dentro do eu da pessoa". O filho sabe que existe um mando dentro dele que ele não sabe e não pode controlar, porque não compreende.

O pai é a ordem masculina, e a mãe, o feminino, que, bem internalizados, facilitam a definição da identidade.

Finalmente, a principal função educativa dos pais (facilitar os caminhos a percorrer pelos filhos em sua passagem pelo Édipo) só pode ser realizada por eles mesmos, enquanto os demais papéis por outras pessoas, com parentesco ou não.
5 - NÍVEL DE EXIGÊNCIA E EXPECTATIVA
Os pais, para o seu bom desempenho na educação, devem estar com o seu eu discriminado e percepção objetiva, a fim de que os seus pensamentos, emoções, desejos e ideais não se confundam com os de seus filhos e dos outros. Quando, porém, se realizam tais projeções, é bem possível que comecem a exigir dos filhos e dos demais o que está fora do alcance deles, sem enxergar as suas reais necessidades e limites. Dessa maneira, surgem expectativas coerentes com os ideais dos pais e não dos filhos, resultando dai situações de impotência diante dos objetivos ditados pelos pais. Nível de exigência alto e expectativas demais causam tensões, medo, angústia, depressão, pânico e até suicídio. Cada indivíduo tem um potencial e um limite que deve ser observado e respeitado.
6 - ESCOLHA DA PROFISSÃO
Enfatizo, aqui, o problema da vocação. Antes, porém, esclareço que aptidão é inconsciente e vocação já é consciente. A transformação da aptidão em vocação é um processo em que os pais e professores devem observar e anotar, desde a mais tenra infância, a curiosidade, interesse, motivações da criança, a fim de facilitar a escolha vocacional, que poderá ser confirmada por entrevista e testes.

A televisão deveria realizar, com um "Informador Profissional", palestras sobre as diferentes áreas, profissões e outros dados esclarecedores, e a escola e orientadores educacionais e vocacionais complementariam esse trabalho. Digo "Informador Profissional" porque freqüentei curso específico e recebi o Certificado da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro). O "Informador Profissional", de forma neutra, oferece aos interessados os dados reais das profissões. Informar não é orientar. Na falta de Informadores Profissionais, os Orientadores educacionais e vocacionais, bem como os demais profissionais, poderão substituí-los; todavia, esses profissionais não devem transmitir as suas motivações, nem se apresentar com roupas características da profissão, garantindo, assim, a neutralidade da informação.

A escolha certa da profissão é sinal de maturidade, o que é resultado de um processo, constituído pelos "caminhos percorridos", "função e desempenho de papéis dos pais", identidade, nível de exigência e expectativa, limites que favorecem o equilíbrio emocional.

Esclareço que, apesar de possuir o Certificado do Curso de Informação Profissional, não mais atuo nessa área.
CONCLUSÃO
Pelo exposto, infere-se que os pais têm a função educativa principal que permita a concretização dos caminhos a serem percorridos pelos filhos, os quais remetem à passagem pelo Édipo, tornando-os amadurecidos no afetivo-sexual para realizarem "as suas relações com o outro", "consigo mesmo", a aceitação e obediência às leis universais e particulares de convivência familiar e social. Dessa função educativa resulta, ainda, a objetividade das percepções e reflexões dos filhos, avaliando estes os seus atos, a fim de assumirem suas responsabilidades, inclusive a escolha da profissão, com plena consciência.

Do dito, origina-se o "adulto" capaz de participar e interferir no processo de transformação e construção da nossa sociedade.

Aí está a prevenção e defesa contra as drogas.

Finalmente, pela experiência de mais de 35 anos e magistério, do primário ao universitário, julgo-me autorizado a afirmar que cabe aos professores, como parte do processo educativo (através de sua postura, presença alegre e prazerosa e vocação), na transmissão de conteúdo, pesquisa, prática, com métodos e técnicas pedagógicas adequadas, proporcionar a "linha afetiva" para contaminar a sala de aula e a relação professor-conteúdo-aluno que sustentarão a atenção, concentração, compreensão, interesse e disciplina dos alunos. A motivação não se constitui de recursos que visem a outros objetivos em relação à imagem do professor, recursos esses que poderão descaracterizar o real papel desse profissional que deve merecer nossa admiração e gratidão.

Durval A. Lomba - Pedagogo, educador, psicólogo, psicoterapeuta, pós-graduado em Orientação da Educação, Mestre. Ex-professor das Universidades Federal, Católica e Tuiuti e do Colégio Santa Maria.
"Como amadurecer os filhos e como desenvolver a personalidade dos filhos"
Jornal do Colégio Santa Maria
Dezembro de 1989
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