ENCONTRO E SEXUALIDADE
Transcrito da gravação
1.INTRODUÇÃO

Agradeço aos pós-graduados o convite para proferir esta palestra na Universidade Tuiuti sobre o tema "Encontro e Sexualidade".

Acredito que o convite se sustenta porque o primeiro curso de sexologia concretizado no Paraná, foi na minha clinica de Psicologia e Psicoterapia através do Doutor Araguari, psicólogo e sexólogo no Rio de Janeiro. Também se inspira numa das aulas que ministrei no 5ºano do Curso de Psicologia e muitos não esqueceram do psicodrama com participação dos alunos.

O tema teoricamente é bem sugestivo, mas na prática, remete às personalidades sadias a sua realização.

A "sexualidade" conduz, mas não necessariamente implica no "encontro". Este, o "encontro", todavia, implica na "sexualidade".

A identidade sexual e papel realizam a "sexualidade", mas nem sempre promove o "encontro".

Será o "encontro" o fato original em nossa existência?

Será o "encontro" a sustentação entre os parceiros?

Será o "encontro" o fundamento primeiro de nossas satisfações?

Acontece que hoje, aqui, é um nível mais elevado por serem pós-graduados em "sexualidade humana".

Aproveito o momento para transmitir, agora, aos médicos e psicólogos que frequentaram o primeiro curso de Sexologia, na minha clinica, que guardo com muito carinho não só as lembranças como a ata de freqüência, programa e realização durante 18 meses, foi um curso oportuno e necessário pois os nossos conhecimentos não ofereciam o ajuste de comportamentos para as disfunções sexuais.


2. DESENVOLVIMENTO

Permitam-me, caros colegas, neste instante solene de apresentação de Monografias, colocar a expressão "o rito" desta palestra é o seguinte:

a) Iniciar como ponto de referência a vivência da minha pessoa que tem justificativas no desenvolvimento;

b) Depois, os poetas onde colho frutos maduros e saborosos no rabiscar de suas poesias transformando o ideal em real, concretizando e estimulando os nossos desejos na harmonia e ritmo dos seus versos;

c) Em seguida, ilumino com a filosofia os pilares que alicerçam e comprovam o fenômeno primordial de nossa existência;

d) No final, a psicologia clarificando os acontecimentos, através de impedimentos, fracassos e sensações esquecidas ou reprimidas e relações duradouras.

Assim, nesta versão abrangente sobre três ângulos, três caminhos, o meu Eu dará consciência ao Tu de vocês, é o jogo das consciências se aprofundando nas emoções, buscando a reflexão e compreensão objetiva sobre "Encontro e Sexualidade".

REFERENCIAL -MINHA PESSOA -VIVÊNCIAS

Meu sedativo noturno era e é a leitura de poesias e assuntos filosóficos. Em seguida durmo tranqüilo, em paz e também aguçam meus sentimentos e meu pensar através destes conhecimentos tão profundos que exigem minha reflexão e aquecem minha excelente memória.

As motivações deste saudável hábito se alicerçam na minha infância e adolescência.
Nasci em São Luiz, ilha e capital do Maranhão - Atenas brasileira, talvez porque lá declamar versos, discursar nas praças públicas, bares, clubes, aniversários, eram desafio e hábito do cotidiano. Falar corretamente a nossa língua, cartão de visita do bom estudante. Debater o emprego e estudo do "que" do "se", baseando-se no latim. É bem possível herdado do "Trivium" (lógica- gramática- retórica), quase que lido obrigatoriamente pelos universitários dos Estados Unidos da América.

Olhar o infinito, esperando o "Encontro" céu e terra, sol e lua nos levavam a filosofar sobre o além, Deus, mundo e o homem, a vida e morte, nosso destino um diálogo interno e externo.

Este meio favorecia a presença da sensualidade e sexualidade das adolescentes, com suas vestes leves, se confirmavam como mulher, promovendo em nós, adolescentes, no cruzar dos olhos, a certeza de nossa identidade sexual.

Estes momentos inesquecíveis e contexto em que vivi lá, até meus 16 anos é que me inspirei para ordenação desta palestra, na qual procuro a melhor forma em clarificar a dinâmica da palavra "Encontro" que, em si, é carregada de força, energia, libido, desejo, ideal, porque o verbo "Encontrar" é contaminado de transitividade em busca do objeto e não de intransitividade, estático e sem objeto.


COLABORAÇÃO DE POETAS

Privilegio-me com o poeta Oldemar Justus (falecido), Acadêmico da Academia Paranaense de Letras com a transcrição de parte de seu discurso de posse e referência da poesia "A Entrega" de seu livro Feito Pássaro e, também, "Presença"em Poemas "Além das Estrelas", oferecida a minha pessoa. Diz o poeta - A trilha da poesia é feita de fragmentos de vida, retalhos do cotidiano que vão desenhando na tela do inconsciente a transcendência do existir.

Ser poeta é vivenciar o lado de lá das coisas, o tempo além do tempo, a luz além da luz, como se o mundo em que vivemos e a nossa própria vida, fossem apenas o reflexo de um momento constante e harmonioso, direcionado ao infinito, mas delimitado e restrito a essa distância azul de nossa imaginação.

Ainda os filósofos decifram o Universo a luz da razão, a religião, através da fé e da palavra sagrada, até Deus. Ao poeta cabe ir mais além, alcançar a mecânica do eterno.
Refiro-me agora, ao poeta catarinense que conheci havia anos, Nelson Carvalho Cordova, que me ofereceu "Encontro", coletânia de poesias onde está como primeiro "Encontro".

A eles meus agradecimentos, porque me inspiraram para realizar esta palestra
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PUBLICAÇÕES

REFERENCIAL A PSICOLOGIA

Inicialmente digo eu - ao psicólogo cabe intuir em decifrar o invisível e alcançar a verdade particular, analisando, interpretando, dramatizando e fazendo das palavras o veículo que alcança as emoções, porque a lógica não se aplica às emoções, aos sentimentos, ao contrário das coisas que são concretas. O invisível é bidimensional e as coisas são tetradimensionais.

Muitos elegem também, elementos internos e fatores externos como base para homeostase, equilíbrio que direcione ao "Encontro e Relação Sexual".

Numa expressão sintética devemos conhecer a visão dos nossos desejos, dado pelos construtores da psicologia. Freud traduziu a natureza dos desejos e pulsões do homem, sexo e sobrevivência, amor e agressão, finalmente, vida e morte.

Adler, busca do poder. Ranck, necessidade de vontade forte e construtora. Ferenzi, amor e aceitação. Horney, segurança. Sulivan, satisfações biológicas e segurança. Fromm, necessidade de satisfações. Roger auto-preservação e valorização. Assim "ad infinitum".

Disto resultam respostas que se realizam e lembrando Ken Wilber em "Espectro da Consciência", que a consciência é um espectro (uma espécie de arco-íris, faixas) a que em cada nível vai se posicionando a nossa identidade, pois sem consciência dela não há "encontro", porém confusão e doença, Identidade do Universo (mente), ao organismo (Existencial), a psique (Ego) e partes da psique (Persona).

No nível existencial o homem se imagina separado do ambiente, logicamente ameaçado por ele. No nível Ego, o homem julga-se alienado do próprio corpo e assim do meio ambiente. No nível Sombra, o homem fica divorciado da psiquê. Tudo objetivando o homem, o seu bem estar, porém, na relação, no "Entre"que deve estar limpo, sem ameaças, sem recursos e defesas.

Por outro lado informo, criador do Psicodrama, Moreno se fundamenta bastante na filosofia de Martin Buber, pois se refere à "Categoria do Momento e o Encontro".

Para mim, o imediato na Relação Real se projeta através da espontaneidade, na ruptura do dique energético como se refere Castanheda C. no seu livro "Estranha Realidade".

A reciprocidade é a tele que conduz à inversão de papéis e a tele percepção real do outro. A intencionalidade é o meio forte do protagonista frente ao drama é a busca da resposta na relação papel e contra papel. Tudo se realiza como se fosse no aqui e agora, é o "Encontro". Com o "Aqui" que se procura é a relação essencial, o aqui e agora é "Atualização" do encontro, Wilber K. "A eternidade para o tempo, o infinito para o espaço, consequentemente o passado e o futuro são ilusões e que a única realidade é o presente, onde se vai ao "Encontro".

Até agora me reportei sutilmente ao Encontro e a Relação, ao Diálogo, mas a concretização envolve a maturidade afetiva e sexual, isto é, com base na demonstração, fruto da evolução da própria natureza humana. É a base, a sustentação do encontro e sexualidade.

Há, porém, outros componentes que comprovam a existência real, sentida, tais como afinidade, interesses, anseios, renúncia, confiança, nível de existência, reconhecimento, gratidão e respeito, cooperação, admiração etc entre Eu e o Tu, os parceiros, base para trabalhos na psicoterapia de relação para o Encontro.

O encontro é imediato, espontâneo, não há jogos nem recursos. Muitos não se satisfazem com o seu Eu, há muitos Eus que, paradoxalmente fogem da vida, do Encontro com a presença de fantasmas que inviabilizam o Encontro. É o falso Eu (Winnicott).

Aqui cabe refletir sobre o fracasso não só no amor, também na relação genital e, no encontro. Um Eu do passado, vai em busca das fantasias do passado e quando tenta se atualizar no presente o fracasso é iminente. Não há encontro, nem sexualidade. Alexandre Lowen, criador da bioneregética, classificou alguns tipos de caráter que expressam conteúdos como recursos, mecanismos, impedimentos etc, nos "Encontros e Sexualidade".

O caráter esquizóide - só posso exisitir se não tiver necessidade de intimidade - o Eu permanece isolado, sem o Tu.

O caráter Oral - se eu sou independente, devo desistir de toda necessidade de apoio,calor humano - também exclui o Tu.

O caráter psicopata - posso me aproximar se eu deixar você me controlar ou usar-me - emprego de recursos.

O caráter masoquista - se eu for livre, você não me amará - recursos.

O caráter rígido - posso ser livre se não perder a cabeça e se não me entregar totalmente ao amor - recursos.

3.CONCLUSÃO:

Pelo exposto, o entendimento do "Encontro e Sexualidade" são realizações difíceis, apenas para pessoas sadias. A vivência de cada parceiro, o conhecimento teórico bem amplo conduzindo à compreensão e consciência devem evoluir o emocional, os sentimentos, a fim de que os parceiros desenvolvam os seus desejos e reduzam os seus impulsos que são passageiros e alívios momentâneos.

As escolhas do parceiro devem ser real e não fantasiosa ou por encantamento de parte do corpo. A relação parcial é doentia. A criança inicialmente se vincula ao seio (parcial) evoluindo para o todo (adulto).

Acredito, com mais de 30 anos de trabalho profissional, como psicólogo clínico e professor universitário, que o conhecimento profundo da filosofia, dos poetas, dos Mestres da Psicologia e Psicoterapia, poderão facilitar muito o "Encontro e a Sexualidade."

O conhecimento numa só direção afunila e não nos proporciona a realização do "Encontro e Sexualidade", destruindo em curto tempo a relação, daí as manifestações do casal, da família e até dos amigos. Esta palestra, fundamentada em vivência pessoal e profissional, nos poetas, na filosofia, na psicologia, nos falsos Eus, nos recursos etc, que objetivam ampliar a ótica das idéias fixas, as quais deixam o ser humano limitado e velho.

É oportuno alertar para nós profissionais, não nos afirmarmos em princípios, orientações, regras já estabelecidas que não se adequam ao mundo atual. A psicologia e psicoterapia necessitam avançar do pós nascimento para o pré-natal, a educação atual deve ser iniciada no ato da concepção (desejo de conceber) e a união dos parceiros preparada antes dela, para que ambos se conheçam profundamente e saibam manejar com os defeitos e vícios já existentes.

"O Encontro e a Sexualidade" realiza a união dos parceiros.
Agradeço a paciência, a tolerância desta quase interminável palestra ao alcance também do leigo
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, S. "Lo Siniestro" Obras Completas. Tomo XVIII. Buenos Aires. 1953

Idem "El yo el ello" Obras Completas. Tomo X. Buenos Aires. Santiago Rueda 1953

WINNICOTT, D.W. "Dessarrolo Emocional Primitivo". Revista de Psicanálise. 1948

CANTANHEDA, C. Estranha Realidade. Gráfica e Editora de Livros-RJ

KEN WILDER "Espectro da Consciência". Rio de Janeiro

MARTIN BUBER "Eu e Tu"

JUSTUS, OLDEMAR "Feito Pássaro " Coletânia de Poesias. Editora Litero-técnica. Rua Alferes Poli, 299. Curitiba-Pr

Observação: Referências bibliográficas incompletas porque foi gravada a palestra.

Durval Lomba - Psicólogo Clínico - Psicoterapeuta, Pedagogo,
Pós-graduado em Educação, Mestre, ex-professor da Universidade Federal do Paraná, da Pontifícia Universidade Católica e Universidade Tuiuti. CRP 08/004.

Colaboraram:

Yeda Lucia A.Lomba - Psicóloga Infantil, Pós-graduada em Sexualidade Humana lacto sensu. CRP 08/00842

Vera Regina A.Lomba - Psicóloga pela Universidade Gama Filho Rio, Psicoterapeuta pela Sociedade Dinâmica de Grupo e Psicodrama, experiência como amiga incondicional para Psicóticos e trabalho em vários hospitais e favelas do Rio de Janeiro. CRP 08/03929

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