O BRINCAR
1 - O BRINCAR NA PALESTRA
Dia 8 do corrente mês, quarta feira, às 19h30 min, entrava no Auditório deste Colégio, acompanhado de duas psicólogas, psicoterapeutas que trabalham na minha Clínica. Ao meu encontro, o Presidente da APM e esposa e a Orientadora Educacional.

Estava frio e chovia, transformando a noite não muito convidativa para se afastar do aconchego do lar e ouvir a palestra "A RELAÇÃO CONJUGAL NO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE DOS FILHOS" que seria proferida por mim.

Aos poucos, os mais interessados no tema foram chegando.

Antes do início da palestra, conversei com o Presidente da APM e em seguida, participou o ex-Presidente. As duas psicólogas ficam dialogando com a Orientadora e a mãe de um aluno.

Às 20h15min realizou-se a apresentação costumeira e foi pedido a aproximação dos presentes, pais e professores, a ocuparem as primeiras filas.. Também me sentei próximo, formando assim, uma "RELAÇÃO HORIZONTAL".

Abordei determinados assuntos tais como: níveis de exigência e expectativa demasiados; relação professor e aluno; relação conteúdo do ensino e emoção e afeto; o não e sim na lógica; inteligência e criatividade; os papéis e a primazia da relação conjugal na educação; a depressão na infância e adolescência; bem como a depressão e doença do pânico nos adultos; num tom de brincadeira e seriedade sobre o Jardim de Infância 1, 2, e 3 e em breve 4 e 5, conseqüentemente, cursinho de preparação para o vestibular ao ensino do 1º grau - escola educação e escola empresa, etc. Aonde irão parar as criancinhas!

Após uns 30 minutos, o MONÓLOGO do palestrista perdia o sentido porque os conteúdos motivavam de forma imperiosa ao DIÁLOGO, entre o palestrista e alguns presentes, em busca de orientação e esclarecimentos. Esgotava-se, após certo tempo o DIÁLOGO e surgia naturalmente, a participação GRUPA entre os elementos, pais e professor, oferecendo e recebendo experiência, num clima de confiança, abertura, do compartilhar, redução da ansiedade, sem medo de certo e errado, na tranqüilidade e intimidade propiciado pelo ambiente. Não havia mais hierarquia de conhecimento, mas um BRINCAR de troca-troca de experiências entre o EU, o TU, o NÓS - Palestrista, Pais e Professores.

As 22h30min oferecei a mensagem de despedida - "SE EDUCA BRINCANDO".

Na despedida, o Presidente da APM pediu-me que escrevesse sobre BRINCAR, que traduzisse a mensagem. Não assumi o compromisso, mas lhe disse que, quando o Colégio Santa Maria me pede algo, faço o que possa para realizar.

Aqui estou, com a minha simplicidade nas palavras, até familiar, porque o SIMPLES leva à compreensão e reflexão mais profunda e o COMPLEXO à confusão.
2 - O EDUCAR - O BRINCAR
AS CONSCIÊNCIAS
Assim como o AMOR não é fácil conceituar, definir, porém de demonstrar pelas características de Admiração, Reconhecimento, Gratidão e Esperança; O EDUCAR BRINCANDO se realiza na Relação Horizontal, Conhecimento e Confiança recíprocas, na liberdade de expressão sem medo e receio de certo e errado, no manejo adequado das variações de Afeto e Agressividade. Realço a Ação dos Limites necessários ao bem viver e dos outros, Criança de Adolescente quando extrapolam no comportamento e atitudes, estão pedindo limites firmes a fim de que, mais tarde, reconheçam, pelo julgar e sentir, o momento de aplicação dos seus próprios limites, já com Autonomia, sinal de maturidade.

O exercício da liberdade implica na Consciência de Limites que permita a construção do meio familiar discriminativo e respeito do EU, TU e NOS e do que é MEU, TEU e NOSSO e, um ambiente externo não policiado, favorecido pelo desenvolvimento da Consciência Crítica em que ambas consciências servirão a não falência da Democracia. O indivíduo constrói a família e esta a sociedade. Quem não reconhece seus limites não educa para sociedade e nem desenvolve o potencial para o seu bem viver e dos outros. Não confundir "limites" com repressão. "Limitar" é evitar doença. "Reprimir" é conduzir à doença, à neurose. O sim é SIM, o não é NÃO, a ambigüidade, ambivalência na expressão, traz confusão no comportamento.
3 - O EDUCAR - O BRINCAR
O BRINQUEDO - A REALIDADE
Quando o bebê com seus brinquedos, inicialmente, parte do seu corpo, como o polegar, chupando desde a vida fetal, depois o seio, que constituem área intermediária de experiência, área base de ilusão, pode-se dizer que está numa Relação Divina, porém transitória, mas necessária à sua maturidade afetiva -agressiva. Ela é o brinquedo.

Mas tarde, com outros brinquedos, ela já criança, ora ela é o brinquedo, ora ela mesma, e neste processo de troca, mais tarde de inversão os pais e professores, vai se humanizando, isto é, sentido e respeitando, e privando e se gratificando, construindo as suas criações e limites.

O brinquedo, inicialmente, inanimado, destituído de malícia, censura e perigo, porém estimulante à curiosidade, acalma e tranqüiliza, e, acima de tudo, é depositário incondicional dos desejos, necessidades e idealizações. O brinquedo não deve ter outras finalidades e objetivos, a não ser de BRINCAR.

O brinquedo, que não implica em exigências, desenvolve o "Ato de Brincar" e irá facilitar o "Amadurecimento" que é a evolução da "Percepção interna, subjetiva, bidimensional", isto é, "Fantasia" à Percepção externa, objetiva, tridimensional espacial e a temporal - "Realidade". É uma evolução e aprendizado natural - é a saúde da personalidade.

Quando esta Realidade é dura, com ausência de brinquedos e ato de brincar, com exigências e responsabilidades demasiadas, com ansiedade, medo e com superproteção, há permanência na Fantasia ou bloqueio com a realidade, impedindo ou dificultando a dinâmica "Fantasia-Realidade"; "Realidade-Fantasia", conseqüentemente a doença mental ou emocional.

Há diferença entre assumir responsabilidade e exigências por "Circunstâncias" e por "Imposição". Na primeira poderá Amadurecer, na segunda envelhecer antes do tempo.
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PUBLICAÇÕES
4 - O BRINCAR NA EDUCAÇÃO E VIDA
Agora, transcrevo, alguns trechos de "O BRINCAR E A REALIDADE" de D. W. Winnicott.

"O brincar facilita o crescimento e a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia".

O brincar facilita o desenvolvimento da "Criatividade" e através dela, mais do que qualquer outra coisa, o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida. No relacionamento de submissão, não há brincadeira, porém um sentido de inutilidade que está associada à idéia de que nada importa e não vale a pena viver a vida. Agora eu digo que é a doença, as tentativas de suicídio e o suicídio.

Continuando com D. W. Winnicott, "o impulso criativo é algo que pode ser considerado como uma coisa em si, algo naturalmente necessário a um artista na produção de uma obra de arte, mas também algo que se faz presente quando qualquer pessoa, bebê, criança, adolescente, adulto, velho se inclina de maneira saudável para alguma coisa que realiza, deliberadamente, desde uma sujeira com fezes ou o prolongar do ato de chorar como fruição de um som musical".

"Está presente no viver momento a momento como na inspiração de um arquiteto ao descobrir subitamente, o que deseja construir e se, com a percepção do material, o seu impulso passa a tomar forma".
5 - A DISPOSIÇÃO PARA O BRINCAR E A RELAÇÃO CONJUGAL
Retomando o meu espaço, digo eu que a "disposição para o brincar", o "brinquedo" e a "brincadeira" do bebê, da criança, adolescente e adulto não está somente na relação pais-filhos, porém na primazia do exercício do desempenho do papel HOMEM-MULHER, afetivo e sexual, na relação conjugal que gerou o filho.

O exemplo dessa primazia, principalmente para crianças e adolescentes, leva à introjeção de uma relação que mais tarde servirá, também, à vida no lar, educação de seus filhos e, por cento, facilitará uma escolha do cônjuge, se mulher mais feminina, se homem mais masculino, evitando, assim, a competição entre os papéis, portanto o desgaste da relação.

Quando no meio familiar, após o nascimento dos filhos, houve resgate do papel de mãe para o de "Mulher", bem como do de pai para o de "homem-marido surge, naturalmente, a primazia da relação conjugal e aí tudo se desenvolve, como brincadeira, isto é, com ansiedade e medo proporcional, à realidade do momento, com demonstrações sensíveis de disposição afetiva-sexual, sem máscaras, malícia e submissão, propiciando aos seus filhos a tranqüilidade na aplicação da inteligência nos conteúdos escolares, exercício e aceitação da disciplina e as bases da atenção e concentração. Caso não haja o resgate, poderá chegar ao Filicídio".

Muito mais, ainda, favorecendo o desenvolvimento da espontaneidade e criatividade, jamais a timidez, para as respostas saudáveis na viagem da vida. Os obstáculos serão resolvidos, não de forma neurótica, inadequada, mas com alternativas mitigadas de afeto porque a produção, o produto, é de sua autoria, comprovando a autonomia, dispensando, portanto, os ensinamentos que lhe serviram de base à formação de sua personalidade.

A segurança e felicidade no lar está não somente em desejarmos ou sermos bons pais, muito mais na boa relação Conjugal.

Acredito que a palestra proferida foi uma "brincadeira" caracterizada pela evolução do Monólogo-Diálogo-Grupo porque a relação entre todos se realizou através da liberdade de perguntar, do troca-troca de experiências e sem submissão, porque havia interesse e sinceridade de propósito, portanto afeto nas colocações.
6 - EDUCAÇÃO - ENSINO - CRIATIVIDADE - HOMEM - COSMO
Antes de terminar, me permito, com a devida permissão dos leitores, alargar o seu campo da Consciência, dizendo que nós necessitamos não exclusivamente da ciência, também de filosofia e religião.

Não basta conhecermos a vida pós-nascimento, é necessário nos aprofundarmos ao estudo da vida pré e intra uterina, num sentido de continuidade, um sentido cósmico.
Com a descoberta da Física Moderna, Quantum de Energia, Capra, Fritijof, focaliza duas idéias enfatizadas pelos místicos do Oriente e que são temas recorrentes na concepção do mundo da Física atual:

" ... A unicidade e inter-relação de todas as causas e eventos e a natureza intrinsecamente dinâmica do universo".


Frente a tudo isso, leva-nos a reavaliar as relações do homem no e com o Cosmo, o conceito de democracia, política, educação, ensino e sociedade.

É muito mais digno cuidarmos do Homem, do produtor e não só da produção e do produto os quais são conseqüências.
Em vez de copiarmos modelos de outros países, é mais saudável realizarmos a nossa política global coerente com a nossa identidade. Uma fração sem cultivo de sua identidade ficará fraca e corrompida.

Se ainda não saímos das crises - que é visivelmente só uma - Educação, é por ausência de soluções criativas e mais por presença de modelos já conhecidos que trarão sempre as mesmas respostas ou respostas inadaptadas ao nosso povo.

Educação e Ensino sem bases criativas, a nossa viagem pela vida ficará limitada à modelos, à repetição, conseqüentemente, monotonia, desesperança.

Durval Lomba - Psicólogo Clínico - 08/0004 - Pedagogo - Pós-Graduado em Educação - MESTRE - Professor Universitário - UFPR - PUC - TUIUTI - PR.
"O brincar"
Jornal do Colégio Santa Maria
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